2026-07-29

À prova de censura

Em Revolução Moral, Rutger Bregman denuncia o poder das autocracias e a fragilidade das instituições democráticas

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«O presidente mais abertamente corrupto da história americana.» Rutger Bregman, um dos jovens pensadores mais proeminentes da Europa, condenou veementemente a ação governativa de Donald Trump nas Palestras Reith da BBC, no final de 2025.

 

Sem qualquer justificação ou consentimento de Bregman, a emissora britânica, que «pratica autocensura por pressão política do outro lado do Atlântico», removeu aquela frase da gravação da palestra. Segundo o autor, rotulado pela Casa Branca como uma «raivosa figura anti-Trump», esta intervenção censória afeta-nos a todos. «As democracias não colapsam da noite para o dia […] Elas vão-se erodindo gradualmente. Não tenhamos medo de dizer o que está a acontecer. E não tenhamos medo de dizer a verdade.»

 

É esse o espírito de Revolução Moral, um pequeno grande livro que reúne, sem qualquer censura, os textos que inspiraram as quatro palestras que Bregman apresentou na BBC. Inicialmente publicado na plataforma editorial independente neerlandesa De Correspondent, esta corajosa obra chega agora a Portugal, em capa dura, com a chancela da Bertrand Editora e tradução de Joaquim Gafeira.

 

Dividido em quatro capítulos – o censurado «Tempo de monstros»; «Como iniciar uma revolução moral»;«Uma conspiração de decência»; e «A minha religião secular» –, o livro aborda a ascensão do autoritarismo, o fracasso das elites em fazer-lhe frente e a crescente pressão sobre as instituições. Em paralelo, uma crise de valores e o descrédito total de uma geração no poder democrático. «Construímos uma meritocracia de ambição sem moralidade, de inteligência sem integridade. E agora estamos a colher as consequências: confiança em declínio, cinismo crescente e uma nova geração que vê o poder como inerentemente corrupto e toda a virtude como uma mera encenação.»

 

Mas nem tudo está perdido e «nem toda a ambição atual é vazia. Ainda há líderes e cidadãos que tentam manter a linha. […] Isto não tem a ver com a esquerda contra a direita. Tem a ver com seriedade contra preguiça, determinação contra apatia, o bem contra o mal.» Qual é a solução? O autor propõe-nos que avancemos para uma Revolução Moral. «Na nossa sociedade atual, admiramos as coisas erradas e as pessoas erradas. O que os abolicionistas britânicos me ensinaram é que é possível reescrever o código de honra de uma nação. Fazer com que um tipo diferente de ambição se torne viral. Tornar a bondade contagiosa.»