2018-06-28

Raquel Varela esteve na Livraria Arquivo, em Leiria, a apresentar o seu mais recente livro «Breve História da Europa: Da Grande Guerra Aos Nossos Dias»

«Breve História da Europa: Da Grande Guerra Aos Nossos Dias», um ensaio histórico sobre os principais acontecimentos que marcaram o continente entre 1917 e 2017, num olhar aguçado sobre as dinâmicas sociais de um século

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Raquel Varela, historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, esteve, no passado dia 13 de junho, na livraria Arquivo em Leiria. A autora apresentou o seu mais recente livro «Breve História da Europa: Da Grande Guerra Aos Nossos Dias».

A obra foi apresentada por Acácio Fernando de Sousa, que nos proporcionou um testemunho desse dia e do trabalho de Raquel Varela.

Na 4ªf, 13 de junho 2018, Raquel Varela veio a Leiria, à Livraria Arquivo, apresentar a sua "Breve História da Europa: da Grande Guerra aos nossos dias". Num espaço que é um ponto de encontro onde se respiram as palavras escritas, a autora soltou ideias de forma acutilante mas, de também forma envolvente, entusiasmando uma sala cheia. A mim, coube-me fazer uma breve apresentação da obra. Mesmo podendo não ter a mesma visão acerca de tudo, o que observamos é que temos ali uma peça notável, por aquilo que provoca e faz refletir, com dados que nem sempre são percebidos por um olhar mais rotineiro sobre os últimos 100 anos. Na verdade, como ela diz e pelo estatuto de investigadora que tem, é um trabalho de investigação que obriga a um pensamento crítico escrito num estilo, por vezes, quase coloquial.

A carga académica é diluída para se tornar num livro acessível a todos, mesmo a quem não tem a História Contemporânea como principal objeto de estudo. Sendo uma escrita solta e de aparência espontânea, que prende, essa aparência é o que lhe traz leveza pois, não deixa de ser uma obra densa e intensa, naquilo que nos quer pôr a pensar; - depois de ler, saltam 4 ideias principais: 1-o paradoxo das guerras vs. consequências geopolíticas (descolonizações), o progresso tecnológico que provocam, mas sobretudo a evolução social resultante da espiral de tragédia motivada pela queda de algumas elites, como se fosse um "ordo ab chaos" no reordenamento social e numa nova consciência ganha pela classes laboriosas; 2- outra ideia é tudo redundar no retorno do estado assistencial, ou de uma sociedade dominante assistencial que nunca foi, verdadeiramente, substituída; 3- também as verdadeiras correntes para um estado social revolucionário terão acabado no thermidor estalinista e, em Portugal, ao fim 19 meses do PREC; e 4- a concertação social, acaba por ser uma anestesia burguesa sobre quem representa a força do trabalho - não se trata de um livro sobre a História da Europa no sentido tradicional, como se veem muitas vezes os livros de História. Nem é factual, nem fica preso aos mecanicismo políticos conjunturais.

Trata-se de um livro da História das dinâmica sociais, como a própria autora define no preâmbulo, sem se limitar ao exato tempo cronológico do séc. XX pois, a sua caracterização estrutural não coincidirá com o tempo do calendário. Nem mesmo com a previsão de Fukuyama, que acabaria por falhar com o "fim da História", na perspetiva da "normalização" das ideologias. - este é um trabalho de análise social que procura inquietar, obriga a pensar e manter uma análise crítica ao longo leitura, para o que o leitor é avisado, logo no início, com o alerta para observar na passagem do séc. XX para o séc. XXI, uma fugaz mobilidade social cujo avanço resulta do pós-guerra, com a ideia do fim do fosso classista, e de uma verdadeira democracia mas, acaba por não passar de uma miragem com a proletarização das classes médias, fenómeno agravado com a crise de 2008. - quanto a Portugal, surge enquadrado na análise europeia, como território periférico mas, com uma afirmação que não se dissocia do espaço europeu.

Quando chegamos a 1940, no dia a seguir à rendição da França a Hitler, em Portugal, o Estado Novo inaugurava a Exposição do Mundo Português, mostra exemplar de um país corporativo de enganosa ideia de um Estado sem luta classes, enquanto na Europa acontecia o trágico confronto bélico derivado dos confrontos ideológicos. - Hitler não cresceu por si, a conjuntura pós 1º Grande Guerra com os apoios grande indústria alemã fizeram-no crescer e fica a questão se a natureza do nazismo obedece a um determinismo social e político simplista, que se possa alargar a todos os fascismos ou regimes bonapartistas. - a tragédia da 2ª guerra mundial resultou, também, nas descolonizações com o primeiro apoio EUA que não tinham colónias. Só depois, num quadro da guerra fria, a URSS patrocinaria os processos de libertação colonial, sobretudo, após a morte de Estaline, cuja perda de sentido do internacionalismo proletário, deixou os partisans de muitos países isolados. - Em Portugal, o regime insistia no chamado desenvolvimento nacional sem conflito, o principio corporativista de equilibrio entre fracções de classes sociais que não se deveriam digladiar. Já o impacto salta quando perpassa a ideia que a frente popular defendida por Cunhal no "Rumo à Vitória", onde defendia a estratégia de luta com aglutinação da burguesia honrada pelo proletariado, tinha alguma similitude às alianças entre classes populares e a burguesia industrial e financeira, defendidas por Soares, na década de 80 com a ideia da "Europa connosco".

Teríamos, aqui, a mesma ideia de desenvolvimento sem conflito? - a noção de pacto social que nasce com a europa do pós guerra, terá este embrião. Acaba por ser o adormecimento dos representantes do mundo do trabalho, a coincidir com a noção de João XXIII, que o direito a vida, à integridade e à subsistência, deverem derivar da negociação e não do conflito. Isto é, as elites da Europa ocidental poderiam divergir nas estratégias, mas coincidiam nos princípios. - ainda não estaríamos a caminho do fim das ideologias, das chamadas 3ªs vias, porque na década de 60 ainda tivemos, em França, maio de 68 e as revoluções posteriores, como em Portugal, a que se seguiu ao golpe militar de abril 74. Contudo, a democracia representativa não é uma extensão da revolução, mas a rutura com a revolução que durou 19 meses após 1974. - o fim estado social exigido pelas classes laboriosas revolucionárias, vai acontecendo gradualmente, sobretudo, após a crise económica de 1981 até hoje: e cita Eduardo Galeano de forma exemplar, e aqui estou perfeitamente de acordo: as "boas ações" já não são nobres gestos do coração, mas as ações valorizadas na Bolsa. E é na Bolsa que ocorrem as crises de valores! - o centro da atenção dada ao trabalho, passa para a tal negociação, cativando os sindicatos e levando-os a cedências várias, sobretudo com benesses ilusórias, de reposição de um estado assistencial com várias medidas (obras caritativas com nova roupagem?) que iludem mas não resolvem.

Citando a autora: "a ideologia do assistencialismo, das pré-reformas, do colchão social focalizado, da desistência da luta pelo direito ao trabalho, pela redução da jornada laboral sem redução salarial, nasceu antes da queda do muro (Berlim), pela aceitação da chantagem da deslocalização. Trocaram, como programa político, o direito ao trabalho pelo direito ao subsídio de desemprego" - a crise pós 2008, é o que vem criar um novo sobressalto neste adormecimento geral das ideologias com a proletarização das classes


Acácio Sousa 

(diretor do ISLA-Leiria)