Em 1929, José Ortega y Gasset colocou-se no centro do debate filosófico do século XX quando, após ter sido afastado da Universidade de Madrid por motivos políticos e ideológicos, decidiu dar cursos em locais públicos da capital espanhola. Nessas sessões subversivas, propôs uma reforma radical da filosofia que consistia em superar o idealismo e criticar a modernidade.
Marcantes, esses cursos viriam a servir de base para um livro póstumo, editado pelos herdeiros de Ortega y Gasset, em 1957. O Que É a Filosofia? resume a filosofia da razão vital, que se baseia no facto de a realidade radical ser a vida de cada um.
Em contraste com o ser estático, permanente e idêntico a si próprio que os filósofos tradicionalmente procuravam, em contraste com a substância, o autor afirma que a vida é um gerúndio, um «ser», um devir constante, «uma atividade que se executa para a frente, e o presente e o passado descobrem-se depois, em relação a esse futuro. A vida é futuridade, é o que ainda não é».
Acrescenta Ortega y Gasset que a existência é uma tarefa que dá ao homem muito a fazer porque o obriga a exercer a liberdade de ser ele mesmo, de cumprir a sua vocação. «Os egípcios faziam com que os sepultadores substituíssem o seu coração de carne por um escaravelho de bronze ou por um coração de pedra negra; queriam substituir a sua vida. É precisamente isso que o despreocupado tenta fazer: substituir-se a si mesmo. É com isso que ele se preocupa.»
Sete décadas depois, a Bertrand Editora recupera esta obra essencial, que nos mostra o caminho, sem dúvida fértil, pelo qual as armadilhas do racionalismo moderno podem ser evitadas sem cairmos novamente no irracionalismo ou no relativismo.